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Os que se julgam donos disto tudo

Quem assume um cargo público tem de saber ouvir. Quem assume um cargo público tem logo na origem um primeiro ato de ouvir, porque legitimado pelo voto da população, que dessa forma faz audível a sua voz e a sua vontade em relação a um programa que lhe foi apresentado.

Mas este ato de ouvir não pode ser acéfalo, nem pode exigir do ouvinte uma aceitação de todas as injustiças e de todos os ataques, nomeadamente de quem se julga investido de um poder que não tem, ou, pior do que isso, de quem julga ter uma voz superior aos restantes.

São aqueles que eu costumo designar como ‘os que se julgam donos disto tudo’. Uma suposta elite de sangue azul que olha sempre para o povo com desdém, que olha para o povo como uma horda de ignorantes sem sensibilidade e sem gosto.

Os que se julgam donos disto tudo pensam que têm o dever de ensinar esse povo que consideram ignorante, inculcando-lhe os seus “mais altos desígnios”, as “suas brilhantes ideias”, o seu “gosto” e a sua “apurada sensibilidade”.

Autoinvestem-se de um poder que não têm, de uma legitimidade que não conquistaram, mas sobretudo de uma superioridade intelectual que acreditam que os coloca muitos patamares acima dos comuns mortais, da gente verdadeira, da gente que trabalha, da gente que não nasceu no mesmo berço.

Eu nasci deste povo que conquista a custo a vida e o seu sustento, nasci deste povo que tem orgulho na terra que ajudou a formar. Assim também é a equipa que lidero. Gente que saiu do meio dos que se levantam cedo, dos que enchem transportes públicos, dos que se fazem ao trabalho e à terra, dos que sabem que a vida custa, mas também sabem a alegria da conquista, a alegria de fazer o que está certo, a alegria de trabalhar e ver o resultado desse trabalho.

Talvez por isto, eu e a minha equipa temos sido os alvos preferenciais dos que se julgam donos disto tudo. E os que se julgam assim, criticam tudo. No tal patamar superior em que se colocaram, pensam saber mais dos que os outros, pensam ser o seu gosto o mais certo, pensam ser a sua inteligência superior.

Mas pensam ainda mais: pensam que são os únicos com direito à critica, com direito a ofender, com direito a manifestar a sua douta sabedoria. E quando recebem resposta, sentem-se logo ofendidos. Ou seja, os que se julgam donos disto tudo, julgam-se também donos da única verdade e da única legitimidade. Podem ofender, mas não podem ser ofendidos. Podem criticar, mas não podem ser criticados.

No fundo, a grande ofensa para essa gente reside na ideia de que são superiores a tudo e que os outros são o povo inferior, sem gosto e sem sensibilidade ou inteligência.

Querem impor a sua doutrina única aos ignorantes.

Não raras vezes, os que se julgam donos disto tudo criticam mesmo o que nunca tinha sido feito. Quando o património caía aos pedaços, quando a cultura eram pássaros em gaiolas, quando as janelas não se abriam, quando as paredes caíam ao mar, essa gente estava calada. Mas quando o povo, saído do povo e eleito pelo povo, faz o que deveria ter sido feito há anos, os que se julgam donos disto tudo ficam ofendidos. Consideram eles que a sua superior inteligência e sensibilidade não foi consultada, que foi atropelada por aquilo que o povo sufragou e aprovou democraticamente.

Mas será sempre o povo a decidir, independentemente da vontade dessa gente que se julga superior só porque sim.

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